Qual será a eficácia das uniões em blocos no século XXI
Folha Online - Mundo - Terror, ameaça nuclear e pirataria testam eficácia da Otan após 60 anos - 04/04/2009: "04/04/2009 - 08h21
Terror, ameaça nuclear e pirataria testam eficácia da Otan após 60 anos
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MÁRCIA SOMAN MORAES
Da Folha Online
Em 1949, a Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) foi criada por 12 nações ocidentais como ferramenta para bloquear o avanço do bloco comunista liderado pela União Soviética. Neste sábado, exatos 60 anos depois, a aliança militar realiza cúpula para discutir como enfrentar as novas ameaças internacionais, sem rosto ou fronteira definida.
Em Baden-Baden (Alemanha), o presidente americano, Barack Obama, liderará uma 'discussão substancial' sobre a revitalização da organização, um documento que descreverá como a organização deverá se portar diante das 'ameaças do século 21' --o terrorismo, a proliferação nuclear e a pirataria.
O documento, contudo, é resultado de um movimento de modernização antigo. 'Nos últimos 20 anos, a Otan fez um esforço de revitalização para lidar com as ameaças do século 21. Esforços no sentido de modernizar seus recursos tecnológicos, reorientar a missão, lidar com ameaças não tradicionais', diz a americana Margaret Kosal, codiretora do Programa de Não Proliferação Biológica e Química e Antiterrorismo do Centro de Estratégia, Tecnologia e Política Internacional (CISTP).
Para Kosal, a revisão estratégica da aliança militar é parte de um processo de renovação para que a Otan possa encontrar, 60 anos após sua criação e em um contexto completamente diferente da oposição capitalismo e socialismo da Guerra Fria, meios de continuar como componente vital de segurança 'para combater as ameaças dos atores não estatais' --como os terroristas dos grupos radicais islâmicos refugiados no Afeganistão e no Paquistão ou os piratas somalis que sequestraram dezenas de navios nos últimos meses no golfo de Áden, em troca de recompensas milionárias.
Afeganistão
Popular na Europa, Obama é a atração central da cúpula e aproveita os flashes e abraços para trazer, pela primeira vez, seu apelo por maior apoio dos aliados à Guerra do Afeganistão, a primeira ação militar da aliança fora da Europa. Os EUA pressionam os parceiros a aumentar a contribuição em soldados, civis e dinheiro, mas os europeus se mostram resistentes em investir mais em um conflito que, oito anos depois, vive seu mais violento período.
Para Kosal, a nova estratégia de Obama para a 'guerra ao terror' -que inclui US$ 1,5 bilhão anual em ajuda ao Paquistão e mais 21 mil soldados para o Afeganistão- permite aos EUA e a Otan focar em um 'ponto crítico' da segurança internacional.
Rafiq Maqbool - 15.mar.2009/AP
Soldados americanos fazem guarda perto do local de uma explosão em Cabul; EUA pressionam os parceiros a aumentar a contribuição em soldados, civis e dinheiro para a primeira ação da aliança ocidental fora da Europa
Soldados americanos fazem guarda perto do local de uma explosão em Cabul; EUA pressionam os parceiros a aumentar a contribuição em soldados, civis e dinheiro para a primeira ação da aliança ocidental fora da Europa
Ela alerta, contudo, que o conflito vai além dos interesses dos 28 países membros: 'A [rede terrorista] Al Qaeda é um fenômeno globalizado que deve preocupar não apenas os EUA e a Otan, como todo o resto do mundo. [...] Nenhum Estado é invulnerável ao terrorismo'.
Aliança global
Embora Obama tenha reforçado o pedido de apoio dos aliados ao Afeganistão -com discurso no qual chegou a dizer que a Europa é mais vulnerável a ataques terroristas que os EUA- a ausência de resultados concretos, o alto custo em dinheiro e em vidas, além da grave crise econômica reforçam a resistência dos europeus ao conceito de uma Otan global, uma aliança que aja além das ameaças diretas a países europeus e aos americanos, como descrito no 5º artigo de seu texto de criação.
'[Otan global] é um conceito perigoso porque pode impedir a Europa de resolver os problemas locais do continente, que é o objetivo central da criação da aliança. A Otan foi criada para garantir a segurança da Europa e não ir atrás do Afeganistão', afirma Hall Gardner, do Departamento de Política Comparativa da Universidade Americana de Paris e autor dos livros 'American Global Strategy and the War on Terrorism' (Estratégia Americana Global e a Guerra contra o Terrorismo) e 'Dangerous Crossroads: Europe, Russia, and the Future of NATO' (Cruzamentos Perigosos: Europa, Rússia e o Futuro da Otan).
Aliança de essência passiva, a Otan entrou em sua primeira operação militar somente 50 anos depois de sua criação. Foi em 1999 quando comandou a ampla ofensiva ocidental na Iugoslávia com o objetivo declarado de interromper os massacres da população albanesa na Província do Kosovo --conflito que, destaca Gardner, ainda não está resolvido, mas que deve ficar à margem do debate deste sábado.
Ameaça nuclear
Outro debate que não pode ser relegado é a não proliferação nuclear. Obama até prometeu nesta sexta-feira (3) acabar 'com todas as armas nucleares no mundo', mas preferiu deixar os detalhes para a cúpula com as potências da União Europeia, neste domingo (5).
Com o esforço de reaproximação dos EUA com o Irã, dono de controverso programa nuclear, e a as expectativas pelo lançamento de um foguete norte-coreano, regime que há quatro anos discute sua desnuclearização, o temor de um ataque nuclear parece tão ou talvez mais iminente que na época da Guerra Fria.
31.mar.2009/Reuters
Soldado japonês faz a guarda em frente a foguete de interceptação de mísseis; Japão teme que lançamento de suposto satélite norte-coreanos ameace sua segurança e conta com apoio dos EUA para conter Pyongyang
Soldado japonês faz a guarda em frente a foguete de interceptação de mísseis; Japão teme que lançamento de suposto satélite norte-coreanos ameace sua segurança e conta com apoio dos EUA para conter Pyongyang
Mas 60 anos depois, a Otan parece não ter solução melhor que aguardar passivamente uma ameaça concreta. 'O que a Otan pode fazer? Honestamente? Não muito. [...] A Otan daria apoio diplomático e político a possíveis sanções que as potências membros decidissem individualmente', afirma Justin Hastings, do Instituto de Cooperação e Conflito Global da Universidade da Califórnia.
'É uma decisão difícil atacar um país por ameaça de uma bomba nuclear', afirma Hastings, lembrando das armas de destruição em massa que os EUA nunca encontraram no Iraque. Uma lição que a Otan parece não ignorar. 'Se eles já tiverem a bomba fabricada, mesmo assim, há pouco o que se fazer sem ignorar a soberania nacional ou começar uma guerra de proporções imprevisíveis'."
sábado, 4 de abril de 2009
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